9 - MONO - Marcelo Evelin - PI

João Antonio

Ator, diretor, professor

 

 

A porta está aberta. Você pode entrar e sair quando quiser. Quando entra, se depara com um homem nu brincando com bonecos. Há poucas cadeiras. A maioria das pessoas senta-se no chão. Com movimentos lentos, o homem manipula os bonecos. Coloca-os em situações as mais diversas. Dançam, se reúnem, se empilham, transam, caem, observam. O homem replica, arremeda, copia, multiplica, reproduz. Um ser superior manipulando seres sem gênero, sem vontade própria, sem personalidade, sem individualidade? Um sacerdote realizando um ritual para que a humanidade volte a se relacionar? Um deus brincando com suas criaturas?

 

O público observa. A dinâmica dos gestos leva à meditação, à concentração, à participação sem interveniência. O ser/sacerdote/deus continua, ininterruptamente, a criar situações e a participar delas. O tempo se alonga. Algumas pessoas começam a se incomodar, a se mover, a mudar de posição. Outras, constrangidas em sair, foram ficando até serem avisadas que o trabalho havia terminado. Marcelo Evelin continuou com sua instalação/performance mesmo depois que os observadores abandonaram o espaço. O trabalho, na verdade, continua “ad infinitum”.

 

O público pareceu não ter se dado conta de que cada um deveria ter ficado durante o tempo que sua concentração e prazer lhe permitisse. A porta, como foi avisado desde o início, estava aberta. Assim, sem cansaço, poderiam ter curtido mais a performance meticulosa, precisa e profunda do artista.

 

“Mono” dilata tempo de observação e transforma espectador em voyeur

 

Sérgio Maggio

Jornalista, escritor, diretor.

 

Antes de entrar na Galeria Athos Bulcão, o curador e produtor da Mostra XYZ, Marconi Valadares, informa que, no espetáculo “Mono” (PI), excepcionalmente, as portas estarão abertas para que o espectador possa sair no momento em que quiser. Em cena, está Marcelo Evelin, envolto por algumas dezenas de bonecos infantis, todos nus e dispostos em situações que criam uma cartografia cheia de sentidos. Alguns enfileirados e de pernas rasgando o ar como as sensuais vedetes do teatro de revista. Outros em duplas em situações de aproximações e intimidades. Muitos conectados entre si, suscitando bacanais festivos.

 

Não há muitas cadeiras confortáveis para vê-los. O espectador senta-se ao chão, encosta-se na parede e se põe como observador em tempo real para testemunhar o desenrolar da instalação de Marcelo Evelin. O tempo cênico é dilatado e, o silêncio funciona como um importante elemento estético. Aos poucos, a figura nua e forte do coreografo e intérprete começa a se neutralizar diante da disposição espacial de sentidos, que ele constrói em tempo real. Há também uma destituição de significado dos bonecos, não mais vistos como bebês infantis. São corpo nus.

 

Com velocidade e movimentos constantes, Marcelo Evelin descola-se por um território onde cria um forte âmbito de erotismo e liberdade para os corpos. De quando em quando, conecta-se ao movimento sugerido pelos bonecos. A expectativa do espectador é sentida e alimenta parte do jogo. A essa altura, não se pode falar de recepção diante da instalação. A sensação é de que o espectador virou um voyeur. É como se estivéssemos numa cabine oculta onde a gente pode ver tudo que ocorre do outro lado e, os partícipes dos jogos propostos por Marcelo Evelin não nos visse.

 

Nesse sentido, a instalação promove uma potência na recepção. Não se sabe o nível de reflexão geral já que cada um, no tempo, no silêncio e no espaço proposto por Marcelo Evelin formula as percepções. Nesse sentido, testa-se também a resistência física do público. É possível sair antes que as costas reclamem e a dor física não embace momentos de nítida emoção, proposto por uma instalação que evoca a vida, quebra os limites das regras e põe o tempo como um deus em cena.

10 - DE CARNE E CONCRETO - Uma Instalação Coreográfica - Antistatusquo Cia de Dança - DF

João Antonio

Ator, diretor, professor

 

 

 

Com sacolas na cabeça o público entra na ante-sala do espaço cênico. Vários nichos vão sendo preenchidos por seres incógnitos. Aí já tem inicio a instalação coreográfica pretendida. O tempo é longo. A máscara dificulta a comunicação, a identificação. Onde se colocar nesse espaço vazio? Espaço vazio até de sentido, cheio de questões. Causa um grande incômodo. Calor, muita gente junta, a sacola dificulta também a respiração, a visão periférica. Alguns são convidados a caminhar. Quem está convidando? Para onde estará me levando? Alguém levando alguém para lugar nenhum. As paredes são deslocadas, o espaço é modificado, porém nada de essencial se modifica. Metáforas da vida em sociedade?

 

Paredes se abrem e somos guiados para um espaço amplo. Com o lixo espalhado pelo chão, os bailarinos vão enchendo suas roupas e transformam seres humanos em bufões. Os corpos vão sendo desfigurados. A plateia às vezes excessivamente participante, acha graça dessa tragédia. Com violência, os “performers” despem uns aos outros. A reação do publico muda. Começamos a perceber, com mais clareza, a condição em que todos nos encontramos.

 

O nu não carrega nenhum erotismo, manifesta o essencial. Mostra o ser humano sem máscara sem os símbolos sociais, envolvido por todo o lixo por nós mesmos produzido.

 

Com grande preocupação estética, composições plásticas de forte beleza vão sendo mostradas.

 

Mais um trabalho da Antistatusquo que mostra sua preocupação em discutir questões sociais e políticas com profundidade e competência. 

“De Carne Concreto” promove experiência à flor da pele

 

Sérgio Maggio

Jornalista, escritor, diretor.

 

“De Carne e Concreto”, a instalação-espetáculo e/ou a exposição cartográfica, é uma experiência verticalizante da Anti Status Quo (DF). É impossível sair imune do que a coreógrafa Luciana Lara e seu corpo de bailarinos-criadores propõem ao espectador-partícipe: sejam por meio das imagens visuais proporcionadas em cena, sejam pelo mosaico de sentidos que se estabelecem. Como a força de um redemoinho, o espetáculo arrasta a plateia para o olho nervoso da criação.

 

Ao colocar sacolas de compras sobre a cabeça, cada espectador, sem perceber, torna-se cúmplice de premissas das propostas estética e políticas do grupo. Entram de dois em dois e ocupam um espaço restrito da Galeria Athos Bulcão, sem saber que os bailarinos estão infiltrados como público comum. Inicialmente, as reações são discretas (como a de circular, rir e brincar). Tornam-se mais visíveis à medida que eles empurram pesadas estruturas expositivas como cubos e divisórias.

 

Num tempo estendido (que, por vezes, torna-se incômodo, já que o ambiente é claustrosfóbico), o público passa por diversas sensações: da lúdica (por ver todos daquela forma inusitada) à sensação de queda de expectativa (pela demora de ficar diante de uma situação espetacular mais óbvia). Há nesse momento quem desista de assistir ao que virá.

 

Nessa gangorra de sentimentos, a plateia entra em salão amplo ladeado de sacos pretos de lixos. Aos poucos, os performers retiram as sacolas, caem ao chão e fazem uma coreografia em contato com o solo, até romper as embalagens de produtos diversos e lançá-las ao centro. Talvez, aí se estabeleça um primeiro eixo de discussão entre ter uma sacola na cabeça e ficar diante das descartadas embalagens que poderiam estar nesse recipiente de compras.

 

Num dos momentos mais instigantes, os bailarinos andam sobre esse lixo espalhado e acumulam as embalagens sobre o corpo, tornando-se figuras supra-humanas (lembram transformers consumistas). Trabalhando com força, velocidade, aceleração, o grupo evoca uma das sequências mais intensas quando se diluem numa guerra para se livrar desses acúmulos (inclusive a roupa do corpo), numa potente crítica à sociedade do supérfluo e à deformação do humano.

 

Aos olhos do público, “De Carne e Concreto” caminha para uma zona poética, quase lírica, quando os bailarinos coreografam tendo a arquitetura da sala como suporte. Um desses momentos mais tocantes é quando eles percorrem uma parede de canto da galeria. Um a um, um corpo desliza nu tendo os demais como base de apoio, indicando a leveza do humano livre após esse forte processo de desconstrução materialista.

 

O retorno constante ao lixo, no entanto, desvia o espectador dessa sensação de respiro e tira um pouco a força da narrativa já que se volta, por vezes, para âmbitos já visitados, num trabalho que, posteriormente, requeira uma edição desapegada desse poderoso material que Anti Status Quo tem em mãos.

 

A combinação entre a instalação e a exposição é recomendada por associar a materialidade aos vestígios, mantendo “De Carne e Concreto” à flor da pele como uma memória difícil de se diluir.

 

Conjugar a exposição e o espetáculo “De Carne e Concreto”, da companhia Anti Status Quo (DF). 

8 - AO CAÍREM AS ABAS - Anna Behatriz e Aline Brasil - GO

4-SACOLAS NA CABEÇA - Antistatusquo Cia de Dança-DF      

O Terceiro Olhar

 

Flávia Faria

31 anos, brasiliense e publicitária. Acredita no poder transformador da arte em todas as suas formas. Apaixonada por dança contemporânea. Fez parte do Núcleo de Formação da Antistatusquo por quatro anos.

 

 

A performance já impressionaria se fosse realizada em cima de um palco e sem muitas composições cenográficas. O local escolhido para a apresentação, a plataforma localizada próxima à rodoviária do Plano Piloto no centro de Brasília, trouxe dramaticidade aos corpos inertes, tanto quando invertidos quanto quando estirados no concreto quente. Representariam eles um ato de resistência da natureza entre os humanos? Não sei dizer ao certo. Ao meu olhar, a magia de “Árvores” ficou em cada transeunte que teve a oportunidade de permear entre os bailarinos. Seja pelo impacto visual, que conseguia ser simples e discrepante ao mesmo tempo, ou por talvez enxergarem um ato de coragem e desprendimento. Nunca saberemos ao certo o exato detalhe que fez com que algumas pessoas parassem a sua trajetória apenas para observar o que estava acontecendo. Porém, ouso dizer que a intervenção pode ter espalhado sementes.      

Três Olhares e uma dança tem o intuito de fomentar a criação e leitura de textos analíticos sobre dança. O projeto consiste na publicação, aqui no site do festival, de três textos analíticos sobre os trabalhos apresentados. Dois escritos por especialistas (o ator e diretor teatral João Antonio e o jornalista, escritor e diretor teatral Sergio Maggio) e um assinado por um espectador.

 

O público da IV Mostra de Dança XYZ além de poder acompanhar a produção de textos analíticos de cada apresentação da programação da Mostra é, assim, convidado a produzir um texto para ser publicado também! A ideia é a troca de ideias e impressões sobre cada trabalho, um exercício para o olhar e a escrita que busca multiplicar pensamentos sobre dança e arte contemporânea e, com isso, intensificar a reflexão a partir da experiência estética.

 

Para participar é só mandar um email para mostradedancaxyz@gmail.com Escreva Três Olhares e Uma Dança no assunto. No corpo do email envie seu nome completo, um parágrafo sobre você, contato telefônico e em anexo, de preferência em arquivo Word, um texto sobre qualquer trabalho artístico que tenha assistido durante a Mostra. Não se esqueça de colocar o nome do trabalho e o dia que você assistiu!     

 

   

“Árvores”  transforma vazio urbano e jardim de humanidades

 

Sérgio Maggio

Jornalista, escritor, diretor

 

A plataforma entre o Conjunto Nacional e o Conic é um não-lugar, onde, geralmente, caminha-se com o objetivo de se chegar a locais menos ásperos, como os dois centros comerciais localizados em suas extremidades. Sem a presença humana que o atravessa, esse território remete ao vazio urbano da cidade e às infinitas solidões que a circunda. Nesse sentido, a intervenção “Árvores”, de Clarice Lima, provoca uma ruptura de tempo e espaço, afetando os passantes fisicamente e os desviando do cumprimento pragmático de simplesmente se deslocar de uma ponta à outra.

 

Quando os 12 performers iniciam o movimento, popularmente conhecido por “plantar bananeiras”, instala-se uma quebra instantânea diante do fluxo de gente. As correntes humanas ficam atordoadas, perdem o sentido de seguir. Param, riem, fotografam, filmam. Querem de alguma forma se inserir em meio àqueles corpos plantados no concreto quente pelo sol a pino. Fazem isso mesmo diante da fria decisão de não desviar e seguir em frente. De repente, a percepção se altera. Não são simplesmente humanos de pés ao alto. Transformam-se em “troncos” que dialogam com uma paisagem arquitetônica, até então livre e sem obstáculos.

 

Nessa relação com a cidade afetada, um dos momentos mais potentes e poéticos, estabeleceu-se no caráter efêmero do aqui e agora. Um homem de paletó e gravata, com a pasta de executivo em mãos, resolveu desobedecer ao fluxo de gente que caminha pelas extremidades do espaço performático. Olhando para frente, ele resolveu caminhar por entre as “arvores” que persistiam eretas e os corpos caídos ao chão. A imagem dele desviando de cada corpo sem baixar o olhar levou a performance para a leitura entre a cidade sensível e feminina afetada por “Árvores” e o poder do centro urbano avassalador, traduzido pela imagem masculina e patriarcal.

 

Numa performance que exige força física, equilíbrio e concentração mental, “Árvores” ganha potência ao deixar ao acaso o tempo de cada performer em se manter naquele estado de “bananeira”. Ao expor os limites de cada participante (alguns caíram em menos de um minuto), o trabalho se desloca de um eixo de perfeccionismo físico para expor a fragilidade humana como tema potente de leitura, já que os artistas caem em posição fetal.

 

O figurino teatral, formado por saias estampadas e brilhantes, emancipa “Árvores” de leituras estereotipadas, sobretudo, quando os humanos estão ao chão cobertos pelos panos. Se há quem os associe aos moradores de ruas, tão banalizados e invisíveis à sociedade, em “Árvores” os vem ludicamente, sem aquelas cobertas cinza de frio, mantos da invisibilidade que tanto deprimem os olhos e nos afastam de um pensamento crítico sobre a falência humana. Aqui, quem sabe é possível, por alguns instantes, lembrar que há vida sob um corpo caído no concreto e ela produz poéticas.

 

Árvores/Plantações de Clarice Lima

 

João Antonio

Ator, diretor, professor

 

Esta é a segunda vez que topo o desafio de Marconi Valadares para dizer algo sobre a arte do indizível.Como vivo de desafios (sou ator, dirigi bailarinos, coreografei atores, fui professor) , aceitei.

 

O primeiro trabalho aconteceu na plataforma superior da rodoviária. Árvores/Plantações é descrito como “um exercício do desejo de permanência”.

 

Mas, me questionei: como o transeunte/espectador, sem conhecimento do título/proposta, receberia a interferência no seu espaço?

 

Entrevistei alguns passantes. “É bonito”. “Dança não é não. Eles não se mexem” . “É um protesto”. Contra o quê? “Não sei não”. E se eu lhe disser que são árvores? “Ah, claro, é contra o desmatamento!!!”. “É um exercício pra ver o quanto eles aguentam ficar de cabeça pra baixo” Só? “Mas é bonito de ver”.Quando alguns já estavam caídos: “olhe só o que faz a cachaça!”“Que que é isso, meu deus?!?!?! Coitadim dos menino nesse chão pelando!!!!”Muitas fotos. Uma mulher filmou quase todo o trabalho. “Fiquei impressionada com aquele último. Dezessete minutos e ele ali, firme! “Outra no telefone: “Valeu a pena ter vindo na cidade”.

 

São várias as propostas, nas diversas artes, em que o conceito brilha muito mais que o resultado, que a performance é apenas uma preguiça de ensaiar.

 

Basta um palito sobre a mesa e ao lado um grosso livro sobre a fome no mundo!!!

 

O trabalho de Clarice Lima interfere de verdade no cotidiano, no espaço e no tempo. Toca o espectador incauto de várias maneiras. Ninguém passou incólume pela passarela. Foi impossível não olhar, não sentir, não pensar e, para muitos, não comentar. Para os bailarinos, um exercício de permanência. Para o espectador uma agradável surpresa e uma belo assunto para levar para casa.       

1 - ÁRVORE PLANTAÇÃO de Clarice Lima         

7 - DESPACHO - Jorge Schutze - AL

João Antonio

Ator, diretor, professor

 

 

Um homem comum se aproxima de alguém e pergunta se pode dançar. Não é um jovem. Sua roupa é mais simples do que a da maioria dos que estão no ponto de ônibus no Setor Comercial Sul. Repentinamente ele se movimenta. O espaço à sua volta também se move. " Ele me assustou, não sabia quais eram suas intenções. Hoje em dia, tudo é muito perigoso. " Uma jovem sorri, um menino gargalha, um homem se afasta, uma menina dança com ele. Caminha ao lado, em volta dos passantes, olha nos olhos, conversa, convida.

 

Jorge Schutze não é o estereótipo do bailarino, nem do ator. É um homem corajoso. Salta no precipício da incomunicabilidade e consegue provocar reações, estabelecer relações. Interfere no cotidiano com delicada firmeza, com suave presença, com amorosa provocação. O perigo da agressão é eminentemente. Olhares apreensivos , ameaçadores, policialescos são afastados por sua tranquila energia, sua sensibilidade.

 

Despacho é um dos trabalho que mais justifica o título de intervenção urbana. Só acontece quando uma relação se instaura. Raramente é possível saber o que realmente acontece se o observador não está envolvido.

 

Jorge, no seu texto de apresentação diz que o trabalho " é uma tentativa de encontrar sabor na relações humanas". Tenho certeza que encontrou. Seu despacho foi aceito por Exu, o Orixá da comunicação.

 

O convite irresistível para dançar com Jorge Schutze

 

Sérgio Maggio

Jornalista, escritor, direto

 

Despacho é uma palavra tipicamente ligada à alegoria da rua. Nas religiões de matriz africana, por exemplo, é uma forma de materializar energias negativas e lançá-las a céu aberto, para que os “donos das encruzilhadas” a devorem, deixando corpo, alma e caminhos leves. Nesse sentido, o bailarino Jorge Schutze (AL) exorciza, por meio da dança, as “quizilas” que existem entre humanos desconhecidos, os que nunca foram apresentados um ao outro. Carregam, portanto, entre si o peso de serem estranhos, de não nutrirem afetos por não existir um vínculo social possível.

 

“Despacho”, a performance, é um convite para aproximações e possibilidades, a partir de um inusitado convite: “Posso dançar para você?” Ao lançar o inesperado convite, Jorge Schutze oferece não só corpo, mas toda a sua partitura de movimentos colecionados em trajetória artística. A sua dança é como uma oferenda. Assim, estabelece, a partir do nível de resistência do interlocutor, um jogo singular de construção a dois. Num tempo que não é o do relógio, instala laços que seduzem, envolvem, emocionam, estranham ou repulsam.

 

Não importa o resultado da dança em si. O impacto da abordagem tem um efeito deslocador. Seja para quem abre o campo de energia a fim de que ele o envolva, seja para quem o ameaça por invadir um território pessoal instransponível. Dessa forma, Jorge Schutze se lança sem redes de segurança diante do outro. Não importa o papel social de cada um: uma vendedora de guloseimas, um policial ou um evangélico que distribui panfletos de fé. O que o bailarino procura é instigar o estranho a ocupar um salão, onde se pode cochichar ao pé de ouvido, como nos bailes românticos, aqueles que dançavam a dois e recortávamos o universo num feliz fragmento de vida.

 

Tirar alguém para dançar é um ato de coragem, de ímpeto, de saída para um campo relacional que pode ser sedutor ou assustador. Jorge Schutze estabelece relações em torno de seu partner. Caminha por entre obstáculos que os distancia, como mesas, balcão de roupas em liquidação e postes. Dança para quem está parado, para quem anda, para quem o vê da janela da repartição, para quem passa devagar dirigindo o carro.

 

Jorge Schutze faz uma performance, sobremodo, de dança. Da sua dança de vida, cheia de afetos, que emociona quem assiste de longe. Em seu corpo, expõe o RG de um artista nitidamente afetado pelo o que o circunda. É emocionante vê-lo, como um menino feliz, a brincar com o corpo, que se quebra, se desmorona no chão, se desenrola no asfalto. O empenho para que a sua dança vire a dança a dois, que se estabeleça como um vínculo possível na multidão de solitários. Ao propor essa dança, Jorge Schutze aponta para o vasto mundo que habita em si. ”

 

 

O grande baile de Denise Stutz

 

Sérgio Maggio

Jornalista, escritor, diretor

 

Num momento do espetáculo “3 Solos em 1 tempo”, a intérprete, autora e diretora Denise Stutz pede para que a plateia esqueça que está na Galeria Athos Bulcão. Sugere que o público imagine um espaço com pé direito alto, uma cortina vermelha de veludo, um palco com profundidade de campo a se perder de vista. Os olhos se fecham e lá está ela, em minha mente, sob um pino de luz, concentrada em sua imagem de bailarina. Eu a vejo num transparente e esvoaçante vestido branco que, ao se mover em suas células coreográficas, tem a cor do figurino alterada pelo jogo de refletores.

 

O fluxo mental é tão potente que demoro a voltar ao espaço presente, onde Denise Stutz desenvolve a sua dança pessoal, corajosa e única, embalada pelo RG de uma trajetória que generosamente é posta à mesa para um banquete preparado delicadamente com as memórias fluídas, dinâmicas, sem o peso do pó do tempo. “3 solos em 1 tempo” é digerido em pequenas porções e Denise Stutz recebe cada um de nós como se estivesse diante do espelho. O outro pode ser reflexo, um fragmento de si mesma.

 

Essa delicadeza é o fio que tece a montagem de natureza dramatúrgica fortemente teatral, na qual a narrativa se faz também pela palavra. Mas não a imposta. A que brota da boca da intérprete abre brechas para que o corpo possa assumir a contação, sem competições, numa harmonia orquestrada pelo jogo imaginativo que se estabelece desde o primeiro momento, quando elege um partner na plateia para a narrativa de um pas-de-deux vertiginoso e emocionante.

 

Com humor e carisma, Denise Stutz conduz uma montagem que não se prende aos elementos autobiográficos. Ao investigar as razões de sua dança, ela pega a plateia pelo braço e a convida pra dançar. Não é exagero dizer que ao fim de “3 solos em 1 tempo”, a sensação é de ter participado de um grande baile democrático, onde se dança por está vivo e compartilhar da delícia de se transmutar por meio da arte, com fez Denise-clássica-moderna-contemporânea-teatral. Nesse sentido, “3 solos em 1 tempo” é um espetáculo que traz uma dualidade: é íntimo, mas feito para multidões.

 

O jogo que Denise Stutz propõe tem a potência teatral de transgredir a necessidade física de estar visual em contato com o corpo que dança. 

2 - 3 SOLOS EM 1 TEMPO de Denise Stutz      

3 Solos em 1 Tempo - Denise Stutz

 

João Antonio

 

Ator, diretor, professor

 

Escrevo ainda emocionado com o trabalho de Denise Stutz.

 

Um espaço vazio, a luz que normalmente ilumina a sala, uma única música que se repete, um figurino que poderia vestir para ir ao supermercado. Quase nada para desvendar um universo de uma história muito bem contada.

 

Denise fala com o corpo, dança com as palavras, coreografa com a imaginação, a nossa imaginação. Nos fascina com sua presença inteira e íntegra. Conta a história da sua vida e da nossa. Nos chama para dançar e, sentada em sua cadeira e nós na nossa, fazemos um pas de deux delicioso. De olhos fechados a vemos nua. Quando abrimos os olhos, ela realmente está nua. Carrega sua história no corpo. Sua memória está lá para ser lida por todos. Sem censura, sem pudor, sem vergonha, com humor ela se entrega inteira para que a devoremos com emoção e prazer. Seu trabalho é denso, intenso, inteligente, crítico, culto, maduro.

 

Não tenho mais o que dizer. Só um grande obrigado por nos fascinar. 

“Livro” evoca a força do corpo que narra e constrói

 

Sérgio Maggio

Jornalista, escritor, diretor

 

Quando se adentra na Galeria Athos Bulcão para assistir ao espetáculo “Livro”, a bailarina, coreógrafa e diretora Margô Assis risca o espaço cênico com uma série de movimentos em solo, que parece apontar o “prefácio” dessa escritura cênica. Algumas dessas células coreográficas são repetidas enquanto a plateia se acomoda e entrega-se aos primeiros instantes. Estamos diante do corpo que parece buscar afetos, abraça a si mesmo enquanto se estabelecem oposições entre equilíbrio/desequilíbrio, com um forte destaque para a projeção dos membros superiores.

 

Num canto do espaço cênico, é possível observar objetos revelados que, na sequência, como “capítulos”, vão interagir com o corpo/Margô e estabelecer fronteiras de sentidos. Em comum, são propostos pelo artista plástico Eugênio Paccelli Horta e, ao entrar em contato, com a criadora, permitem um complexo jogo, que se torna cada vez mais instigante à medida que essa narrativa avança.

 

No primeiro deles, intitulado “Livro da Morte”, onde corpos masculinos e femininos, alguns desenhados anatomicamente, formam, com a interação de Margô Assis, um poderoso tratado sobre sexo e poder. A imagem do livro-arte abrindo-se e fechando-se com a ajuda das mãos da artista, enquanto suas pernas permanecem escaladas, traz uma poética que percorre diversos estados de sentimentos: do afeto ao abuso. O desfecho, quando se relaciona rolando sobre esses corpos desenhados, evoca a potência/impotência do humano perante esse corpo/sexo/poder que redime e dilacera.

 

No segundo capítulo, “Livro - Extensão”, Margô, com dois membros superiores postiços, refaz células coreográficas da abertura do espetáculo e dialoga com o que parece ser uma linha de força do espetáculo: o feminino. Num instante em que essas falsas mãos fecham bruscamente a sua face, a sua expressão de dor e de agonia é tocante.

 

O terceiro e último capítulo é o mais desafiante. “Livro – existência ou Livro da incompletude” é um corpo-labirinto em que Margô Assis percorre e nos conduz a delicadas descobertas; O complexo objeto proposto por Horta é posto em contato delicado com o corpo da bailarina, que parece percorrer uma trilha de conhecimentos, que culmina ao encontro de um livro (real, como conhecemos), num momento emocionante. Ela lê, o que parece ser um escrito poético. Não se ouvem nitidamente as palavras.

 

Aliás, a falta de estrutura cênica da Galeria Athos Bulcão, nua em riders de som e luz, empobrece a teatralidade do espetáculo, dando-lhe um caráter mais cru, quando se pede o signo de claro/escuro, da penumbra e, por vezes, do blecaute. No entanto, a força e a poética de “Livro” sobrepõem a impossibilidade desses aspectos técnicos. 

 

3 - LIVRO de Margô Assis      

 Livro de Margô Assis - MG

 

João Antonio

Ator, diretor, professor

 

As artes cênicas são basicamente artes do diálogo. Diálogo entre linguagens: com a música, com a literatura, com as artes plásticas, entre a direção e os atores, entre o coreógrafo e os bailarinos, entre os artistas e o público.

 

Margô Assis vem se especializando em dialogar. Tem conversado com várias linguagens. Neste domingo presenciamos sua interação com a obra do artista plástico, professor da escola de Belas Artes da UFMG, Eugênio Paccelli Horta.

 

O trabalho tem consistência. Os profissionais são gabaritados. A conversa entre eles acontece. Margô usa seu corpo, muito bem trabalhado, para complementar, se envolver, manipular os livros de Eugênio.

 

Porém esse casamento fica no espaço cênico. O silêncio barulhento e monótono do exaustor, os gestos sérios e ritualísticos, o roteiro pouco dinâmico, fez com que me desconcentrasse várias vezes. Vi gestos na plateia, que me confirmaram que não estava sozinho nesta desconcentração. Um olhar distante, alguém que conferia as horas, um balançar de pernas, um suspiro profundo.

 

Apesar da qualidade do gestual e de belos momentos plásticos o diálogo com parte da plateia, na qual me incluo, não se estabeleceu.

 

Louvo o risco. Só assim construímos trabalhos com personalidade. Mas há a possibilidade de não nos comunicarmos.

Livro de Margô Assis - MG

 

 

O terceiro Olhar:

 

Livro de Margô Assis - MG

 

Marcele Lago

Formada em dança pelo Centro de Estudo do Movimento e das Artes Angel Vianna

Produtora do Festival Marco Zero- Dança em Paisagem Urbana

 

 

Uma galeria com cadeiras em semi circulo, um espaço aberto e delimitado pelo vazio, as luzes no centro do semi circulo apontam para a bailarina, na lateral livros de papelão, o movimento no silêncio, um corpo que dobrava e desdobrava como origamis, a escuta da respiração que percorre o espaço e nos chama para essa meditação em movimento. Sobre o mover apreciei as dobraduras, mãos, cotovelos, cabeça, articulações, tronco, os pés pontuavam o chão com reticências de uma escrita corporal !!!

 

Como Sherazade a bailarina nos apresentou uma história sensorial, sinestésica. A contadora de histórias, que fazia origamis com as dobraduras do corpo sentou-se no chão e folheou um livro com paginas de papelão, que se abriam, centro e laterais. Das cadeiras, apreciamos a contadora de historias, que nos convidou para uma leitura das mãos que folheavam personagens: um homem, uma mulher, um esqueleto desenhado e surgia um dedo quase erótico, um dedo que ocupava um circulo.

 

Reticências com os pés, dobraduras articulares, respiração meditativa, meditação em movimento. Nesse segundo momento, surgem mãos de papelão, delas brotavam leveza suave, a textura do material era modificada a cada movimento. As mãos de papelão respiravam junto com o origame corporal que preenchia as diagonais do espaço, os movimentos eram leves, as mãos voavam como pássaros que abraçam a liberdade do espaço.

 

O terceiro livro eram formas geométricas, recortes retos um barroco cubista, cheio de lados triangulares, retangulares, formas que se abriam e se fechavam, formas retas, mas o corpo da bailarina, nesse livro virava um origame circular. Nesse momento, o livro, Sherrazade e seus origames corporais se tornavam uma só coisa. Rolar por dobraduras de papelão, ocupando e desocupando as formas, em alguns momentos um triangulo que preenche o espaço, e em outros a cabeça enche o vazio triangular. Surge de dentro do livro: barroco cubista, um outro livro de Clarisse Lispector, algumas frases são ditas quebrando o silencio da respiração. O som das palavras logo é silenciado pelo pulso da respiração, aos poucos a pulsação do origame volta com intensidade, aos poucos o corpo vai parando até se tornar forma, até se tornar postura, assana e silencio.

 

5 - PARQUEAR BANDO - Margô Assis e Thembi Rosa - MG

Parquear Bando 

 

João Antonio

Ator, diretor, professor

 

 

Uma ideia tão simples quanto um pedaço de bambu. Pedaços de bambus equilibrados sobre as cabeças de um grupo de bailarinos. Acrescente-se a isso o fato de que esse grupo está num dos espaços mais caóticos dessa cidade, às vezes excessivamente organizada. Pronto. Parquear Bando, de Margô Assis e Thembi Rosa do Dança Multiplex começou.

 

O Setor Comercial Sul foi novamente invadido, subvertido, mexido.

 

De início, a imobilidade se instala. O equilíbrio leva a uma postura ereta, faces compenetradas, olhar fixo. Quando o movimento começa é ritualístico, lento. A relação entre os bailarinos começa. Entre o público, também. Os passantes procuram um sentido. As coisas precisam ter uma lógica: "Eu sei que é Arte, mas prá quê???" Precisa ser mais que isso? Não basta?

 

O desequilíbrio faz com que o bambus caiam e provoquem nos participantes belos movimentos. Numa das passagens, a trilha sonora vem de um músico que, eventualmente, lá está tocando Beatles no seu violino. Casa perfeitamente com o trabalho. Depois, cantos de ambulantes oferecendo capas para celulares, relógios em liquidação, sapatos para senhoras de fino trato. Mais tarde, música mecânica atrai fregueses para uma loja. Em seguida, o grupo é envolvido por moradores de rua que participam ativamente, mostrando que podem equilibrar os bambus, apesar do desequilíbrio de suas vidas, e fazem isso com humor e prazer. Vira festa!

 

Composições estéticas encantam os observadores. A aproximação física entre os bailarinos resulta num trançado de corpos e bastões. Quando separados, ocupam o espaço entre policiais, restaurantes, lanchonetes, bancos e lojas.

 

O Bando parqueou o espaço com muita competência, delimitando, animando, instigando, embelezando, provocando.

6 - POLITIKUS - Ary Coelho e Luisa Günther

POLITIKUS - Ary Coelho de Luisa Günter 

 

João Antonio

Ator, diretor, professor

 

 

A Passarela superior da rodoviária faz jus ao nome: passarela.    

 

O desfile é riquíssimo: cabelos coloridos, figurino extravagante, maquiagem pesada, ornamentos mis. Em muitos momentos era impossível saber quem eram os intervenientes, quem tinha atitude mais política. Seriam os que, com seu visual, defendiam suas opções estéticas, sexuais? O homem que escrevia com giz no chão seu protesto? Os participantes da mostra - bailarinos de outros trabalhos, organizadores, fotógrafos, plateia especializada - formavam um grupo que se distinguia e também "performava".      

O grupo Corpos Informáticos de Bia Medeiros fazia uma intervenção paralela. Com essa quantidade enorme de informações distintas, Ary Coelho e Luisa Günther corriam o risco de passar desapercebidos. Mas, com um trabalho fortemente teatral, enfrentaram a concorrência e se destacaram.

 

O figurino, os personagens, o gestual, a distribuição do panfleto, os momentos de interrupção do fluxo dos passantes, as composições, num pas de deux às vezes violento, às vezes erótico, mas sempre político, conseguiram passar seu recado.

 

Os passantes tiveram um comportamento menos participativo que em outras intervenções da mostra. Talvez, pela dispersão do foco que o ambiente proporcionou. Porém, quem se concentrou na performance principal viu uma apresentação que denota pesquisa, proposta, trabalho. 

Parquear Bando” desacelerou a energia do Setor Comercial Sul

 

Sérgio Maggio

Jornalista, escritor, direto

 

 

Itinerante e cartográfica, a intervenção urbana, “Parquear Bando”, de Margô Assis, mexeu com a “energia” acelerada do Setor Comercial Sul, acostumado a fluxos corridos de passantes e carros. A utilização do elemento do bambu, como um dispositivo que evoca equilíbrio, concentração e permanência, propôs a “reutilização” do território, dado ao vaivém de pessoas. A imagem dos performers, num estado desacelerado, quase em meditação, deslocou o tempo cotidiano ao tempo íntimo, no qual qualidades de movimentos como (velocidade) provocaram sensações diferenciadas de duração.

 

É como se a intervenção “Parquear Bando” no alcance a que se propôs organizasse, suavemente, o espaço/mundo/território a partir do seu referencial sinestésico. Isso ficou bastante evidente quando o grupo de artistas ficou diante de cidadãos em situação de rua. Visivelmente agitados e curiosos com a proposta da performance, eles foram se deslocando do estágio pulsante para a possibilidade de experimentar posições de equilíbrio e concentração. Alguns acalmaram-se e experimentaram esse outro estágio de energia.

 

Com variações de composição, a partir de uma série de preposições do corpo (variações de altura, de velocidade, de fluência), os performers evoluíram e se relacionaram entre si, criando imagens poéticas emolduradas pela cartografia urbana, de sons e de paisagem. Quando encontram um músico de rua, que tocava ao violino “Yesterday”, de os Beatles, os artistas dialogaram suavemente com a trilha sonora, promovendo uma sobreposição de intervenções (a do “Parquear Bando” e a do violonista).

 

A A relação com o espaço territorial, talvez, pudesse ter sido melhor explorada, como foi em “Sacolas na Cabeça”, pelo deslocamento mais vetorial do Setor Comercial Sul em sua arquitetura complexa, de subsolos e avenidas laterais. “Parquear Bando” seguiu uma rota mais reta. No entanto, diversificou e afetou, com intensidade, essa rota.

 

“Polítikus” provocou o estado de alheamento do cidadão

 

Sérgio Maggio

Jornalista, escritor, direto

 

“Polítikus” é uma performance-manifesto antropofágica, anarquista e carnavalizante. Ary Coelho e Luísa Günther transformaram os corpos em plataforma de signos para expressar posicionamentos éticos, políticos e artísticos, por meio de uma relação que dialogava com várias formas de poder (a política, a sexual, a religiosa, a econômica).

 

Apesar de trazer em cada uma composição singular e performática, os dois se apresentavam como um conjunto de seres congestionados, amarrados e engarrafados por símbolos que representam a mobilidade urbana, como a fita de identificação e o cone de sinalização. Eram seres livres e potencialmente travados por fatores externos e alheios.

 

Ary, macho, com falo simbolizado por um cone, e figurino fragmentado que remetia ao poder de decisão patriarcal (paletó, gravata), mesmo que posto em crise (combinado com bermuda, cores berrantes e um all star vermelho). Luísa, fêmea, com mamilo e glúteos ressaltados pelos cones, numa acentuada performance que questionava variáveis como o tempo e a racionalidade (sexual, inclusive).

 

Enquanto Ary seguia em movimentos que dialogavam com o sacro, por vezes remetendo ao gestual cristão, por vezes aos benzimentos afros, Luísa era mais sinuosa, belicosa e buliçosa com os passantes. Ele trazia chaves que abririam caminhos. Ela, um relógio cronológico para questionar o tempo dos homens. De quando em quando, acasalavam-se e misturavam-se formando um corpo só.

 

Distribuído por Ary, o “Manifesto para a Elite Patrimonialista” funcionava como o extrato do pensamento filosófico e estético de “Polítikus”, que criou, para os leitores, desnecessários links com o Brasil estado corrompido de agora ao mesmo tempo em que pôs o alheamento da população em relação à arte em evidência (a parte mais provocativa do texto). “É tudo fachada. Inclusive o seu desdém”.

 

Feito num horário de quase rush, “Polítikus” teve uma dificuldade efêmera de apreender o mundo pulsante e de se instalar como performance potente em meio ao fluxo cotidiano, que permaneceu mais forte. Talvez, porque tenha sido percebida como uma manifestação à política pragmática, ganhando a adesão de manifestante antigoverno que riscava o chão da plataforma com palavras bíblicas de ordem. Talvez, porque a força entre a potência da dupla Ary e Luísa tenha ficado diluída por performers que participaram da ação sem uma nítida integralidade aos elementos essenciais dessa composição. Havia um excesso em torno deles. E a saturação pode ser uma informação ou um ruído. Nesse caso, não ficou claro qual a opção dos criadores.

 

Quem, no entanto, fixou-se no jogo do casal pode perceber, com mais intensidade, a potência da performance, com fortes elementos de dança contemporânea, aspectos que destacam a qualidade da composição de Ary Nunes e Günther. 

 

 

 

Sacolas na Cabeça - Antistatusquo Cia de Dança - DF

 

João Antonio

Ator, diretor, professor

 

 

Setor Comercial Sul - não me lembro de ter passado pelo SCS de bom humor. Sempre indo a algum lugar nada agradável, atrasado, mal estacionado, esbarrando em uma multidão, ouvindo gritos de ambulantes.

 

Hoje, chequei cedo com receio de chegar tarde. No ponto de ônibus em frente à um palácio do consumo, um grupo enorme de pessoas olha na mesma direção, imóveis, incomunicáveis, tristes, mas numa bela formação. Quando chega a condução, uma grande dinâmica de movimentos ocorre. Gente saindo, gente entrando, gente correndo, angustiadas. Trabalho de um coreógrafo? Uma intervenção urbana? Não, só a realidade de um setor comercial.

 

Dentre vários personagens, um senhor de idade com um terno surrado, paletó na mão e um olhar de desânimo, um outro, mais velho com um jaleco de médico, cheio de propagandas de uma marca de colchões, com o olhar cabisbaixo, um jovem todo de branco, de batom, com uma bermuda curta puxando um chocalho de favas como se fosse um cachorrinho. Epa!!! O que será isso??? Logo em seguida um outro bando com sacos de papel na cabeça.

 

Escondendo de quem? Protestando contra o quê? O SCS enlouqueceu ou a loucura já estava ali???

 

Quem são vocês? É um protesto contra a homofobia, contra a carestia, contra o excesso de consumo? Vocês têm que ter uma razão para fazer isso. Por que não querem me explicar??? Não estou entendendo nada...

 

Mas todos foram provocados. O saco de papel na cabeça obrigou que a comunicação se estabelecesse. Que o diálogo com um desconhecido acontecesse. Que a proposta da instalação coreográfica da Anti Status Quo Companhia de Dança se concretizasse. Houve um intervenção urbana. Aquele espaço foi modificado no seu cotidiano.

 

Luciana Lara ainda pensou em momentos de composições coreográficas. Nos espaços mais inusitados, os interventores se reuniam para uma provocação estética. Espalhados no espaço, também conseguiam cenas impensáveis. Uma criadora, sem dúvida, anti status quo.

“Sacolas na Cabeça” é uma provocação aos que trocaram o pensamento crítico por um cartão de crédito sem limites

 

Sérgio Maggio

Jornalista, escritor, direto

 

O Setor Comercial Sul é um dos poucos espaços urbanos de Brasília com densidade demográfica que se assemelha a outros centros de metrópoles tradicionais. Formado por um agregado de prédios paralelos que formam vãos de passagens, esse território tem o gene do mercado, estabelecido tantos nas lojas que margeiam o térreo como nas bancas e toalhas estendidas pelos mercadores, considerados informais pelo Estado.

 

É nesse ambiente que cheira a dinheiro que um “batalhão” de seres desfilou com a sacola de compras posta sobre a cabeça. Todos nós sabemos e intuímos a força desse ícone: o que traz e acumula os bens adquiridos. Pode-se medir, para um louco que assim deseje, o poder aparente de compras de uma pessoa pela quantidade de sacolas com que ela passeia por entre vitrines.

 

Por esse símbolo sobre a cabeça, é como substituir o senso crítico pelo consumismo, o capital e o capitalismo. É estampar o vazio de comprar, comprar e comprar na face. O cérebro é meu cartão de crédito sem limites, minha ecobag, para ser politicamente correto, na qual carrego a vida insaciável de ter e poder ter.

 

Talvez, por isso, a intervenção urbana proposta pelo Anti Status Quo Companhia de Dança, provocada pela coreógrafa Luciana Lara, tenha uma fluência tão orgânica por entre esse espaço. Depois de alguns minutos, vendo os “sacolas” andando, fazendo selfie, lendo, escondendo-se ou conversando com transeuntes, tudo parece ganhar uma potente harmonização.

 

Como uma espécie de guia, Luciana Lara leva em mãos “sacolas” para que, espontaneamente, o público se aproprie, num dos pontos mais instigantes dessa performance itinerante. Os objetos voam das mãos e a adesão ocorre, sem se importar por qual motivo, de forma eficaz, alterando a paisagem urbana e fazendo com que os “sacolas” se tornem seres possíveis nesse ir e vir, onde nem as vitrines repletas de promoções são, por vezes, capazes de atrair os olhares dos passantes.

 

Ao ficarem diante desse povo de lógica invertida, muitos curiosos buscam objetivos e lógicas para se andar com a sacola sobre a cabeça. Luciana e seus artistas evitam responder os porquês. Cada um que se provoque ou olhe a quantas andam a conta bancária, o limite do cheque especial e a fatura do cartão de crédito. As respostas podem estar nas faturas das compras.

 

Corpo é uma festa:

 

A participação espontânea do grupo Corpos Informáticos, em meio à performance “Sacolas na Cabeça”, potencializou ainda mais o território da intervenção no Setor Comercial Sul. Com os integrantes de branco e arrastando ludicamente pedaços de um suposto mogno amazônico, o grupo de pesquisa de Bia Medeiros espalhou um delicioso clima de brincantes para apresentar a digníssima madeira à cidade de concreto. A intervenção, aliás, evocou uma frase de Eduardo Galeano, que a artista Bia Medeiros se referencia: “O corpo não é uma máquina como diz a ciência. Nem uma culpa como nos fez crer a religião. O corpo é uma festa.”

João Antonio

Ator, diretor, professor

 

 

Duas bailarinas e um músico, de verdade. Com verdade e competência falam de solidão, de poder, de morte, de seres que se alimentam de si mesmos até vomitar. Saramago, no conto inspiração A Cadeira, explica que desabar," em sentido estrito, significa caírem as abas”. Os personagens deixam cair as abas, desabam, perdem o eixo, caem como a cadeira do poderoso ditador da história que influenciou o trabalho.

 

A dramaturgia tensa, forte, carregada de símbolos, faz com que cada espectador construa seu próprio caminho e busque significados, assim como as criadoras o fizeram, no momento em que sua própria estrutura roída caia. (Jogo com o texto de apresentação das autoras).

 

Poderia lhes contar qual foi a minha leitura de Ao Cairem as Abas, mas é muito pessoal, não interessaria a ninguém. Mas, como a maioria do público, sai mexido e tentando entender melhor o que está por baixo da minha carcaça. 

 

 “Ao Caírem as Abas” leva plateia a transitar por fronteiras de linguagens

 

Sérgio Maggio

Jornalista, escritor, direto

 

“Ao Caírem as Abas” (GO) é uma experiência fronteiriça, híbrida entre dança, teatro, performance e até ocupação. É possível que o espectador que o viu, ontem (26/02), na Galeria Athos Bulcão, tenha saído de lá carregando fragmentos e impressões singulares. Em comum, talvez, a plateia apreenda um trabalho que parte de visceral idades. Trazidas, de sobremodo, nas composições das bailarinas e criadoras Anna Behatriz Azevedo, Aline Brasil e do músico-performer Jerferson Leite.

 

O desmoronamento impactante de uma cadeira é ápice de uma teatralidade que costura toda a montagem. A queda do objeto que se estatela ao chão ocorre no instante em que Anna Behatriz e Aline não são mais dois corpos separados que solam. Estão fundidas e dissonantes num jogo de movimentos intensos e permeados pelas cordas de Jerferson Leite. O móvel parte-se ao chão e deixa de ser corpo-cadeira para dramaticamente ser devorado por Anna Behatriz (ouvem-se os sons das peças ao chão), enquanto Aline observa o espaço esvaziado e propõe o uso de outro objeto-síntese da montagem: um cavalo de brinquedo movido a corda, posto em movimento antinatural, colocado inverso à sua funcionalidade como corpo-brinquedo.

 

É, sem dúvida, o momento mais teatral da montagem-ocupação, que se desloca organicamente por nichos da galeria, movido por uma dramaturgia territorialmente muito bem arquitetada. Ainda impregnado pela que acabou de presenciar, o espectador sai de um cômodo instigado a ver o que acontecerá no espaço posterior. Quando, por exemplo, encontra Anna Behatriz fundida aos fragmentos do agora esfacelado objeto-cadeira.

Ela se ergue numa dança-esparmo, quase performática e que dialoga fortemente com o desfecho do espetáculo. Antes, Anna Behatriz e Aline movimentaram partituras de qualidades de movimento que colocaram os corpos à avessas, como o cavalo a corda que gira erraticamente em torno de si. Âmbitos como fragilidade, força, queda, equilíbrio, desequilíbrio são suscitados pelas duas bailarinas, que dançam separadamente antes de se encontrarem na cena crucial da queda da cadeira.

 

Com espécies de mordeduras metálicas à boca, que criam uma sensação supra-humana, elas duelam como se tivessem numa rinha, num dos momentos mais impactantes da montagem. Trabalham com a ironia ao associar série de conhecidas partituras de danças de salão. É um “balé” que oscila entre a delicadeza e a violência. Culmina numa ruptura corporal de Aline Brasil, quase que animalesca, em nível quase ao piso. Essa intérprete metamórfica faz duo com o músico Jerferson Leite que tenta domar, com as notas, esse corpo-selvagem.

 

O espetáculo ganha desfecho performático, que remete à visceralidade desses três intérpretes, evocando temas como finitude e fragilidade diante à vida efêmera que se esgota no desmoronar do objeto denominado cadeira. No último ato, quando o trio desaparece pelo espaço, deixando o público sem rumo, o cavalo fora do lugar é um índice para puxar esse novelo de pulsões proposto pela montagem cuja trilha sonora é um quarto potente personagem.